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quarta-feira, 14 de julho de 2010

"O Brasil precisa parar com essa bobagem de querer ser país de Primeiro Mundo, o que o Brasil precisa é ser uma grande nação, e uma grande nação é aquela que cuida de seu povo"

Milton Santos - Geógrafo em entrevista a Bóris Casoy na TV Record em 18/04/2000.

Quero começar postando esse texto que produzi já a algum tempo sobre a forma como a educação é tratada pela mídia em nosso país.

Com relação ao editorial publicado na Folha de São Paulo de 13 de Novembro de 2007. – “Salários baixos, não justifica …”. Com certeza cabe tecer algumas considerações. E a primeira delas creio ser a seguinte:

Para que qualquer atividade profissional possa ser bem desempenhada são necessários alguns pré-requisitos básicos, tais como: I) As condições de trabalho – que se não as ideais -, devem ser pelo menos próximas destas; II) Uma remuneração compatível com a qualificação do profissional bem como o grau de importância daquela atividade para a sociedade; III) Uma constante preocupação com o aperfeiçoamento da atividade desenvolvida, tanto por parte do profissional, quanto por parte que se serve da sua mão – de – obra; IV) Um programa de valorização deste profissional que o estimule a buscar sempre uma melhoria na sua performance profissional.

A segunda consideração tão importante quanto a primeira trata-se de uma interrogação. - Considerando-se o modelo sócio-econômico adotado pelo governo brasileiro cujo eixo central gira em torno das idéias neo-liberais de gestão da coisa pública, pergunto “A quem interessa de fato um ensino público de qualidade?” Sem uma resposta honesta e verdadeira para esta pergunta é impossível falar de educação neste país.

Esta questão das faltas já se tornou tema recorrente nos meios de comunicação e no discurso dos “gestores” da educação pública em nosso país. Na verdade essa questão das faltas de professores se tornou o bode expiatório criado pelos “inventores” da educação pública dos últimos anos e muito bem alimentado pelos meios de comunicação e pela intelectualidade que já capitulou ante o canto da sereia neo-liberal para ocultar o cerne do problema, que não é outro senão a má-fé do governo, que abriu mão do interesse público para beneficiar o interesse privado. Afinal tudo deve ser deixado ao sabor das ondas do mercado. Educação, Saúde, Transporte, Previdência, tudo é mercadoria e portanto deve ser tratados como tal. A questão é política, ideológica, não pedagógica. É uma questão de mercado não de soberania nacional. E para camuflar o sucateamento do setor público nada mais óbvio, joga-se a culpa na mão – de – obra. Agora, imaginemos uma empresa privada qualquer, uma montadora de automóveis, por exemplo, Ela quer oferecer um carro sofisticado, moderno, com design arrojado, mas para isso ela quer empregar apenas o talento dos seus empregados; não investe em tecnologias, não utiliza matérias-primas de qualidade, etc. Será que ela conseguirá oferecer um produto final de qualidade? Tal situação ocorre no ensino público, cobra-se competência dos professores – e modéstia à parte -, estes têm de sobra, é só ir até as milhares de salas de aula espalhadas pelo Brasil e observar suas práticas, sem que se atente para as condições físicas e materiais oferecidas ao profissional para que este exerça sua prática docente com qualidade. Aliás, fala-se muito de qualidade, mas ninguém diz com todas as letras que qualidade é esta? Qual é o referencial? Seriam as escolas particulares? Mas quais delas? Pois existem escolas particulares classe A, B, C, D e…. Z.

Mas voltando à questão das faltas dos professores. Observam-se em todas as atividades profissionais ocorrências de ausências ao trabalho. Existem ocorrências que são claramente identificadas como acidentes de trabalho, doenças profissionais, questões de insalubridade, periculosidade, etc.

Parece que na educação não existe isso, é como se a atividade do magistério fosse desempenhada por seres angelicais ou super-heróis em um mundo ideal. Situações que nas empresas particulares são caracterizadas como acidentes do trabalho ou doença profissional, no caso do magistério são consideradas pelo senso comum como indolência do professor, quando não de vagabundagem mesmo.

Professores não são pessoas comuns, trabalhando muitas vezes em situações-limite, sem quaisquer assistências ou acompanhamento adequado, porque afinal de contas para o sociedade brasileira e para os gestores da educação brasileira professores não são trabalhadores, - são “deuses”.

Outro ponto que considero crucial nesta questão é o seguinte: fala-se que os professores faltosos ganham sem trabalhar. Gostaria que a fazenda estadual enviasse cópias dos contracheques destes professores que faltam e recebem, porque até hoje o que observo é quem falta tem o dia descontado do seu salário. Inclusive as faltas passíveis de serem abonadas pela chefia, o são quando esta chefia considera que as justificativas do professor procedem, e nos casos improcedentes o professor recebe é uma Justificada ou injustificada mesmo, sendo tudo descontado do seu já minguado salário. Acho que se a imprensa quer saber quem ganha sem trabalhar deve dirigir o foco da “investigação” para outra área da vida pública.

Para finalizar seria oportuno lembrar que não se vê a mídia abordar uma questão que é central para entender o problema da educação em nosso país nos últimos anos que é a mudança de comportamento das nossas crianças, resultado das mudanças na sociedade principalmente nas famílias (?).

A criança do final do século XX e início deste não quer – e nem pode -, ser educada como foram as crianças do passado remoto ou recente. Os paradigmas são outros, as expectativas das crianças (se é que elas têm) são outras, e a dos pais dessas crianças são outros também. O Estado não sabe disso e nem quer saber, até porque, se o objetivo é reproduzir a desigualdade priorizando, valorizando e enaltecendo o privado em detrimento do público, nem se cogita dos governantes de plantão se preocupar com isto.

Para finalizar, gostaria de afirmar que a Educação pública tem qualidade sim. Os professores são realmente “deuses”, pois todos os dias nas milhares de salas de aulas do país (algumas nem deveriam ter esse nome de tão precárias que são) fazem jorrar leite da pedra,. Quer conferir, visite as escolas públicas (sem avisar), entre nas salas de aulas do nível I (1ª. A 4ª. Série), nas salas do nível II (5ª. A 8ª. Série), venha assistir uma das minhas aulas. Vocês constatarão que a realidade é bem outra, nossa escola pública tem qualidade apesar dos governantes que a vem sucateando a décadas. O problema da escola pública está no fato de que muitos dos “formuladores oficiais” de políticas educacionais, nunca foram, não são e nem nunca serão educadores no sentido pleno do termo, são apenas burocratas, quando muito – simples “pavões”, verdadeiros” saramandaias, que nunca entraram (e nem querem entrar) em uma sala de aula, e acham que qualidade do ensino se consegue com decretos, portarias, resoluções e outros dispositivos, ou o que é pior denegrindo a imagem da única categoria profissional cujo trabalho tem a capacidade de forjar o caráter de uma nação.

CARLOS AUGUSTO FERREIRA SACRAMENTO

Professor Ens.Fund. II e Médio da EMEF CEU PROF. MANOEL VIEIRA DE QUEIROZ FILHO